Leia o Prólogo de Relicarium Volume 1



PRÓLOGO

Era madrugada quando ele invadiu a casa abandonada.

Enquanto os raios dourados e com traçados geométricos duplos envolviam o cadeado do portão da casa, vindos do bastão com runas em sua mão, ele chegava a conclusão de que talvez não precisasse ter esperado tanto para aquilo. Aquela casa estava fora do radar de imobiliárias fazia mais de um ano, e pelo jeito até mesmo dos pichadores. Analisando ainda mais, toda aquela rua parecia esquecida ou pelo menos evitada pelos habitantes da cidade. Ele ficara observando a rua por uns dois dias para saber quando seria o momento ideal de invadir a casa, e percebeu que não havia muita agitação ao redor.

Ao esperar para invadir naquela madrugada, ele notou que se tratava de uma rua morta. Com exceção de um senhor de seus setenta anos, que levava seu cachorrinho para passear ao pôr do sol, não havia outras pessoas morando ali.

Ele conseguia imaginar o porquê.

O trinco da porta abriu com um clique baixinho. Ele deu uma última olhada na rua antes de adentrar na casa.

Se a rua estava morta, aquela casa era um cadáver. Ele teve aquele pressentimento antes mesmo de sussurrar a palavra rúnica que fizesse o bastão brilhar em uma luminosidade própria. O ar estagnado da casa era carregado de poeira, mofo e cheiro de coisas já decompostas. Ele cobriu o nariz e a boca com a gola da camisa, caminhando pelo seu interior, as luzes do bastão rúnico iluminando as sombras.

Havia poeira para todo lado, assim como grandes teias de aranhas que começavam no teto e chegavam à metade da altura da parede. Começou a imaginar o imóvel como uma verdadeira moradia de aranhas e outros animais peçonhentos. Só animais peçonhentos viviam em locais como aquele.

Aquela casa estava morta, e ele sabia que não era apenas pela falta de moradores. Havia algo de estranho nela. Como se tivesse sido violada. Aquilo geralmente acontecia quando locais eram amaldiçoados, morrendo por conta de sua maldição. Ele podia sentir o cheiro de flores decompostas no ar. O silêncio da casa também era estranho. Parecia que ele andava no vácuo.

As pessoas normais não entendiam completamente, mas locais possuíam almas. Independente de construídos ou não pela natureza, todos os locais possuíam uma alma que ao mesmo tempo se refletia na pessoa como era refletido pelas pessoas que passavam por ali. Hospitais eram tão pesadamente carregados por todas as doenças que ali procuravam cura, lares abusivos eram mais sombrios que lares normais pela violência que os habitantes vazavam para a casa. Locais naturais pareciam mais puros por conter uma energia que ainda não fora violada.

Quando um local era amaldiçoado, ele ficava com uma atmosfera pesada, as pessoas sentiam medo ou apreensão por estarem lá. Quando o local era purificado, as pessoas sentiam-se aliviadas, e o local entrava nessa simbiose com o habitante em se sentir aliviado também. Quando uma maldição assassinava alguém, o lar morria também. Uma sensação de morte, vazio, perda, desolação se instalava. Andar por um local assassinado por uma maldição poderia ser comparada a andar no interior de um cadáver humano apodrecendo. Os corredores, veias. Os quartos, órgãos.

Ele retirou de dentro da camisa um colar preso a uma corrente prateada. O colar era feito de vários aros de diferentes circunferências, circunscritos uns nos outros. No centro do colar havia uma pedra esférica totalmente transparente. Ele apertou dois botões nas posições norte e sul do colar e os aros se libertaram, deslizando uns por cima dos outros. Ele girou a pedra ao meio e os aros se moveram também, em direções contrárias. De forma paralela, horizontal e diagonal. Ele observou durante alguns segundos o giro da pedra até ter certeza de que ela não mudaria de cor. Até ter certeza de que ele estava mesmo sozinho naquela casa.

Ele voltou a sua investigação vendo os cômodos vazios, sujos e decrépitos. Tentou não pensar no que havia antes daquele estado de degradação, quando a casa respirava, vivia e ouvia os seus habitantes. Antes da maldição a atacá-la como um vírus mortal, um câncer faminto que devora o corpo até definhá-lo em um cadáver seco.

Não demorou muito para achar o que procurava. Ele se lembrava da posição da janela no quarto que ele dormia, por causa dos vídeos e fotos que recebia. Passou um tempo observando o cômodo, imaginando as noites que foram passadas ali, o que ele deve ter sentido além do que havia registrado para ele.

Não foi difícil encontrar o que procurava. Havia uma tradição para esconder aquele caderno. Uma técnica própria de equilibrar o feng shui do quarto do proprietário para que a presença do caderno não criasse perturbações na energia do ambiente. Alguns usuários não acreditavam muito naquilo, mas seguiam ainda assim por tradição (ou por um medo intrínseco de que se não seguissem algo de ruim pudesse acontecer).

Ele encontrou o esconderijo e segurou o caderno com uma das mãos. Seu coração batia um pouco mais acelerado. Segurar o caderno de outro era quase tão íntimo quanto segurar o diário de alguém. Havia ali confissões, medos e até mesmos segredos que não eram facilmente percebidos em outros locais de expressão de pensamento. A tendência de quem tinha um caderno daqueles era de colocar mais e mais sobre si, enquanto fazia anotações de conhecimento oculto. Quando você enfrentava o que estava escrito naquele caderno, era esperado que falasse mais sobre você. Para algumas pessoas, aquele caderno era o único confidente que possuiriam por toda uma vida.

Ele levantou-se e mergulhado no silêncio de uma casa morta, iluminado apenas por uma lanterna, encarou pela última vez um cômodo decomposto antes de sair com as confissões de um garoto morto.

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