[Crítica de Livro] "A Última Transmissão" de Juza Unno

 Uma interessante, ainda que irregular, coletânea de ficção científica.


um livro de capa vermelha mostrando uma moça japonesa, com maquiagem branca forte no rosto, os cabelos escuros presos em um coque. A cabeça da moça se liga ao resto do corpo vestido em um quimono, por um pescoço feito de hastes metálicas

    Juza Unno era o pseudônimo de Sano Shõichi, e considerado pelos historiadores literários como o pai da ficção científica japonesa, visto que seus contos foram os primeiros a serem registrados no gênero. A última transmissão é uma coletânea de alguns de seus contos mais famosos, e é uma interessante para conhecer a escrita de Juza e a forma como a ficção científica era pensada em sua época. 
    Como analisar livros de contos acaba sempre sendo um pequeno desafio por serem narrativas que, em muitas vezes, não estão necessariamente correlacionadas, resolvi tecer comentários individuais sobre cada história.

    *O Banho de Música das 18 horas: É um dos mais famosos contos do autor, e sinceramente um dos mais irregulares da coletânea, ainda que tenha uma das críticas mais fortes. A história apresenta um governo totalitarista que utiliza de uma canção tocada sempre em um horário específico a fim de manter o controle a produtividade da população de acordo com as intenções de seu líder supremo. As críticas ao fascismo, e ao utilitarismo da mão de obra são muito interessantes, mas a narrativa apresenta muitas coisas em suas páginas, e umas mudanças de tramas que soam estranhas demais. Existe um comentário sobre mudança de gênero que pode ter uma conotação transfóbica sob as perspectivas do dia de hoje.

    *O Homem Quadrimensional: Apesar do início um pouco prolixo por um eu lírico que tenta selecionar até que ponto o leitor tem interesse em conhecer sua história, o conto é um dos mais interessantes, apresentando um conceito de invisibilidade próprio e um estranhamento que termina em um final que flerta um pouco com o horror cósmico. Uma leitura divertida.

    *A Teoria da Colonização Planetária: Os diálogos desse conto são muito truncados! Soa como rascunhos que não foram devidamente revisados, e me deixou franzindo o cenho pela estranheza das interações e os saltos que acontecia entre uma situação e outra. Tem um final bem amargo para a personagem feminina que por conta de seu gênero é obrigada a prestar um papel forçado no futuro (você pode ler essa frase como o final é bem machista).

    *A última transmissão:  É um conto mais simples que os demais, trabalhando na ideia do contato de uma pessoa que preveu o fim do próprio planeta, mas ninguém acredita. Existe aqui uma ideia que se repete do primeiro conto que é o da descrença dos cientistas, principalmente se aquela ciência não satisfaz um interesse político (no caso do primeiro conto, a ciência deixa de ser escutada quando avisa sobre danos, a ameaça do status quo que ninguém quer encarar.) O final, com uma ironia mórbida, me fez soltar uma gargalhada.

    *O Intestino Vivo: Por mais bizarro que pareça, esse conto de um cientista que tenta criar independência biológica de um intestino, modificando-o para que ele continue vivo mesmo estando fora de um corpo humano é divertido. O personagem é um merda? Completamente, mas foi interessante acompanhar as suas estranhas experiências com um intestino que aos poucos aprende até escutar (sim, exagerado, meio brega, mas curioso).

    *O Mundo Após Mil Anos: Unno teoriza aqui as possíveis evoluções da espécie humana no futuro, suas tecnologias e suas prioridades. Por algum motivo, lembrou-me o conto da Máquina do Tempo do H.G. Wells ainda que as premissas não estejam nem perto de serem próximas, mas há aquela projeção hiperbólica que acompanha grandes mudanças de tempo (o que algumas vezes, é um exercício de aceitação grande do leitor porque: o que garante que a moça que se encontra com o protagonista continua falando o mesmo idioma? São mil anos, uma língua pode sofrer modificações após tão grande período de tempo.). O final é engraçado, de um jeito meio mórbido.

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