viver a arte como um parasita

 





    Após noites insones e ataques de pânico, cheguei a conclusão que ser um artista com transtorno de ansiedade é ter um parasita se movendo pelo corpo. Como o xenomorfo de Alien, como a criatura do filme russo Sputnik (2020). Nem chega a ser uma relação simbiótica, porque da simbiose espera-se que ambas as partes saiam ganhando.

    Quando eu estou há duas semanas sem dormir, quando meu pensamento está tão preso em teias narrativas e construções de palavras, quando eu sou a aranha que faz a teia e a tempestade que a destrói chega a ser ofensivo dizer que se trata de uma relação simbionte. O parasita injeta doses de satisfação, assim como o espinho debaixo da pele que incomoda de dia, de noite.

    Expurgue as palavras, o espinho sairá, você conseguirá dormir, irá sentir prazer, mente o parasita, e eu obedeço porque há uma beleza cruel na natureza, e mesmo o veneno vem de cogumelos belos e coloridos.

    Fungos também são parasitas, certo? Acho que a linha de pensamento continua válida.

    E continua mentindo para mim. Irá dar certo na próxima vez, mais um pouco e o espinho sairá.

    E as noites se acumulam, e se come o tempo dos finais de semana e da semana, não consigo pensar em outra coisa. Meu corpo começa a reclamar, o coração palpitando. Não posso ter pressão alta, fiz os exames e deu que estou de bem do coração.

    Mas o estresse se acumula como veneno, os pensamentos acumulados são como leite para amamentar bebê. Alimento que se torna febre e delírio. Eu só queria dormir, eu só queria parar de pensar nessa história, naquele projeto, quero vomitar, quero parar de existir.

    Eu queria descansar, por um tempo apenas, o suficiente para poder acreditar que minha vida não se resume a pensar na vida de outros personagens. O deus cristão descansou no sétimo dia, no meu sétimo dia o parasita continua cutucando.

    Oferecendo mais uma dose de serotonina, mais uma história, quer ser alimentado, mas não me alimenta o suficiente.

    E eu estou cansado das noites insones e dos murros em ponta de faca, de sentir que irei ter um AVC por não dormir direito, por regravar uma mesma cena do meu curta, por ter pouco tempo para contar todas as histórias.

    Quando isso deixou de ser divertido? Quando isso deixou de ser explorar histórias e se sentir satisfeito, para ser drenado, para não saber mais como respirar, o corpo suando frio, o corpo inquieto sem conseguir descansar as três da manhã, andando pela casa como um fantasma que é assombrado pelo fantasma de quem nem nunca esteve vivo. Ainda. Já. Nunca.

    Quando isso virou uma relação parasitária? Nós sabemos que só eu posso contar algumas histórias. Devia ser mais gentil com esse corpo se quiser que elas nasçam, mas não... Não há lógica quando se respira fundo e tenta fixar os pés no chão. Um ataque de pânico é como múltiplas ondas que tentam tirar os pés da areia da praia, alguns centímetros sem contato mais com uma base, ameaça de ser lançado em revolto, mas não é divertido sair flutuando, porque as ondas estão tentando lhe rasgar, entrar pelas narinas e bocas e apertar bem seus pulmões.

    Mesmo que não haja água de verdade.

    Quantas histórias pretendem ser extraídas? Não sei. Gostaria de acreditar que muitas, mas houve uma mutação nesse corpo no percurso desses anos. E eu não sei como ou quando irei transmutar para novamente me deslumbrar e não ser apenas assombrado por essas histórias. Preciso entender como fazer para que esse processo não retire mais pedaços de mim a qual posso precisar no futuro. A arte não devia nunca vir da dor. Existe uma diferença entre esforço e sacrifício. Não me interesso pelo sacrifício quando este cobra mais do que eu posso oferecer.

    E que as ondas não continuem a tentar me retalhar. Não quero ter que usar pedras nos bolsos para evitar o afogamento.



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