[CRÍTICA DE LIVRO] "Só uma rapidinha" de Koda G.
Uma ode a diversidade sexual.
Tenho uma teoria de quem consome literatura erótica no Brasil precisa, quase numa obrigação canônica, conhecer pelo menos um trabalho do Koda G. Eu já tinha entrado em contato com a obra do autor a partir de seu outro pseudônimo, Koda Gabriel, em seu debut com o doce e encantador Ela, videogame e muito sobre nós, e em seu pseudônimo erótico com o delicioso Mais de Nós, e desde então ficou muito claro que Koda tinha uma habilidade incrível de não apenas criar personagens encantadores, como conduzi-los muito bem a situações íntimas com bastante intensidade.
Em Só uma rapidinha, sua coletânea de micro contos, Koda eleva a enésima potência essa habilidade narrativa. As diversas histórias do livro se baseiam na ideia sexual da rapidinha, uma transa rápida, algumas vezes não planejada e em outras em locais inusitados, e Koda se apropria literalmente da estrutura desse ato sexual com uma série de contos rápidos, permeando as mais diversas possibilidades sexuais.
Uma das coisas que mais surpreende e confirma a habilidade de Koda como um exímio escritor erótico, é que esse projeto de livro a primeira vista parece simples, mas é de uma execução muito complexa. Criar uma rapidinha na vida real pode ser fácil para muitas pessoas, mas para uma história escrita, principalmente uma história com poucas páginas (há contos que não devem passar de cinco páginas), e em uma mídia que algumas vezes exige um pouco mais de detalhamento para convencer o leitor, é um desafio enorme. Fora o risco de soar repetitivo após tanto um tempo. Quais são as possibilidades de um livro com mais de vinte contos rápidos?
Koda habilmente apresenta um leque incrível de possibilidades. Não apenas de participantes de suas histórias (aqui vemos corpos cis e trans, homens, mulheres, não-bináries, humanos, não-humanos...) como de situações, e é entre uma rapidinha e outra, que vemos a habilidade de Koda de criar os mais diversos tipos de personagens, personalidades, cenários. É excitante, mas também incrível como o autor consegue facilmente nos colocar em situações de uma forma eficiente, rápida e que convence o leitor sobre toda aquela gama de desejos e conflitos. É como se Koda misturasse as ideias de situações cotidianas vindas do gênero da crônica, mas batesse uma foto daquele momento, em uma composição tão finamente realizada, que nenhum detalhe se perde. Podemos não conhecer tudo daquele personagem, mas assim como é uma rapidinha com alguém que não conhecemos, conhecemos o suficiente para seguirmos até o fim querendo mais.
É possível que os destaques de cada conto mude de pessoa para pessoa. Particularmente, os contos que mais me chamaram a atenção foram o sedutor Swing, o voyeur doméstico Boa Vizinhança, o dominador Sua Majestade, Bissexual (tem um homem com coleira e gaiola de castidade, eu...), e devo exaltar principalmente o submisso Dungeon Daddy e Amor de Despedida. Ambos para mim são o ápice da escrita de Koda nesse livro, sendo um, um conto extremamente sensorial sobre after care e o outro a obra mais melancólica e emotiva do livro, a qual Koda conduz com uma maturidade que pelo menos para mim se destacou de todos os contos.
Só uma rapidinha é não apenas uma celebração da diversidade sexual, com a possibilidade que múltiplos corpos em distintos cenários podem produzir, como o atestado de um escritor com habilidades narrativas incríveis, em criar ambientação e múltiplos personagens de uma forma tão humana e viva.

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