[Fantaspoa 2021] "História do Oculto" (2020). Dir: Cristian Ponce (SPOILERS)

 

O horror político argentino.




História do Oculto (Historia de Lo Oculto)

Direção: Cristian Ponce

País: Argentina

Continente: América



    Existe uma forte potência política no horror. O gênero que tanto pode ser de fuga, de exploração dos sentimentos e de valores humanos (positivos ou negativos), também pode ser um espelho para entender relações de poder, momentos históricos, estruturas. História do Oculto traz essa vertente em uma trama sombria e conspiratória.

    Gravado em preto e branco, o que tanto transporta o espectador para uma outra época, como também exalta a tensão que irá se desenrolar ao longo de sua narrativa, o filme mostra os esforços de um programa noturno,. "60 minutos antes da Meia Noite" (uma espécie de Linha Direta ) em sua última edição, com a intenção de mostrar um esquema conspiratório envolvendo o mandato do atual presidente argentino. Intercalando imagens do programa, a qual o apresentador recebe convidados que de alguma forma estão vinculados a essa tema, com os esforços da equipe de produção que também está investigando nas ruas e em arquivos, o filme usa de uma narrativa conspiratória e com toques de satanismo para apontar uma macula dos governos sul-americanos: a ditadura.

    Ainda que não seja utilizada essa palavra, vários elementos trazem a urgência do terror de estar sob esse regime político (ou de um governo violento e que não está a serviço da população). Enquanto investigam, os personagens da produção possuem o medo de serem descobertos, andar na rua é motivo de ansiedade, a qualquer momento um carro estranho pode ser um inimigo. A qualquer momento alguém pode desaparecer. Não é seguro nem mesmo falar para seus familiares a localização. Investigar esse governo não é seguro, alguém está observando. Esse tom de insegurança e paranoia é bem demarcado pela fotografia preto e branco, e o filme mantém uma constante tensão de perigo.

    Tensão também traduz a urgência das imagens do programa e das entrevistas progressivamente mais estranhas, a quais elementos sobrenaturais (ou coincidências, dependendo da sua interpretação) vão surgindo. Há bons ganchos antes dos comerciais e antes de voltar para o núcleo fora da TV. A montagem consegue manter o suspense que se estende por boa parte da produção, instigando bastante os espectadores, tanto em nível da narrativa como o público fora dela.

    Há um elemento fantástico, que também serve como uma ótima metáfora sobre alguns momentos políticos argentinos (e assustadoramente com a política brasileira). Com o desenrolar dos eventos, uma conspiração envolvendo uma organização de bruxos dentro do governo, onde o presidente fez um pacto a qual condena um país a um "não futuro", e usa de poderes não apenas para ameaçar a população que se opõe como para apagar vestígios de pessoas. É nesse ponto que Ponce encontra uma metáfora muito poderosa.

    Poderia apenas ser uma história sobre bruxos no governo, contudo o diretor e roteirista lança elementos que cria outra leitura. No programa, em determinado momento, um especialista fala do Pânico satânico que aconteceu nos EUA na década de 70, citando até como isso se refletiu nos filmes de terror do país ("O bebê de Rosemary, "O Exorcista), e como foi usado como arma para controle de população a partir do medo. Em outra cena, uma das produtoras que está tentando reunir pistas, ao conversar com seu tio fala que determinado suspeito iniciou o presidente e outros da ala governamental a práticas econômicas, a qual seu tio nomeia como bruxaria. O nome da conspiração/organização investigada é Kingdom (palavra em inglês para reino). E por último, em uma fala para o apresentador, quando é garantido que a filha do suspeito estaria bem, é proclamado o seguinte:


"O Mago vai selar um novo pacto. E tudo vai começar de novo. E depois ele fará outro. E mais outro. Até que toda existência seja reduzida a uma casca vazia, mas ainda viva."



    Que pactos são esses com seres de outro mundo, de outro local? Um pacto que ensina uma forma de relação econômica e de poder que prejudica a existência das pessoas em seu país. Ao juntar os seus elementos, Ponce aponta a relação de partes da elite sul-americana que influenciados por ideias imperialistas estadunidenses instauram regimes de governo que perseguem ideias contrárias, ameaça crianças, que se renova no poder não respeitando o fim de um período. Ao usar da metáfora da bruxaria conspiratória e do Pânico satânico estadunidense, Ponce aponta sobre o passado que ainda é presente (como fica claro quando um celular é inserido subitamente em um filme que simulava toda uma época antiga a qual não se utilizava tais aparelhos).

    Apesar da ótima metáfora política, História do Oculto não é perfeito. Ainda que consiga bons níveis de tensão psicológica, saiba dosar suas informações para manter o espectador (mais de um nesse caso) interessado em sua narrativa, e consiga criar momentos bizarros e paranoicos, há um elemento que não acrescenta tanto a narrativa. Um ritual envolvendo raiz de Tanis (aquela citada em O bebê de Rosemary) que causa alucinações satânicas, e se serve para trazer um flashback que complemente alguns fatos, serve mais como um elemento de pavor, do que necessariamente algo que avance na narrativa. Não se torna algo prejudicial, entregando cenas simples e visualmente interessantes, mas também não acrescenta tanto como poderia.

História do Oculto é um excelente exemplar do farto cinema de horror argentino. Trazendo insegurança, mistério e tensão psicológica por jogar com elementos presente na história não apenas da Argentina, como de vários os países latinos, é um filme que cria uma eficiente metáfora sobre dinâmicas de poder, em uma noite conspiratória e assustadora a sua própria maneira.


Nota: 8

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