[FANTASPOA 2021] "O Grande Salto" (2021). Dir: Karim Lakzadeh (SPOILERS)

 Longa jornada mundo onírico adentro.





O Grande Salto (Shirjeh-ye Bozorg)

Dir: Karim Lakzadeh

País: Irã

Continente: Ásia

Gênero: Drama/Fantasia


    De uma hora para a outra, a vida de Maryam (Sonia Sanjari) muda quando o seu ex-cunhado surge em seu trabalho e revela que um filho que ela havia pensado ter perdido num parto está vivo há dez anos. Criado por outra mulher, por conta de uma deficiência que a família de Maryam e de seu ex-marido não queriam aceitar, o filho a espera num hotel para ser reencontrado.

    Contudo, ao irem para o hotel onde a criança está, Maryam e Man, seu ex-cunhado, descobrem que ela foi sequestrada por um dono de circo que também enganou três homens. Com objetivos que se cruzam, os cinco embarcam numa viagem pela estrada para encontrar o misterioso Shahim. 

    A coisa mais importante que têm que ser falada é que O Grande Salto é um filme de jornada. Não apenas pela premissa que cria uma jornada, como em sua estrutura a qual preza todo o percurso acima de uma resolução. O que não é ruim, principalmente porque Karim Lakzadeh cria aqui uma jornada muito interessante de se acompanhar. Não apenas os personagens são carismáticos, tendo uma química muito boa entre si que vai se tornando mais íntima ao longo do tempo, como os acontecimentos da viagem são bastante interessantes. Há um clima meio onírico que perpassa a viagem e as paradas do quinteto, mesmo com a fotografia estando fincada num realismo. Confesso, que é complicado classificar algumas coisas como fantásticas ou não (uma parte envolvendo um costume de luto me fez questionar se era uma prática cultural real ou algo criado para o filme), mas me atendo a momentos que desafiam lógicas sociais realistas, como trocas por coisas simples, uma leitura de mão a qual se puxa um fio da mão invisível (com o som denunciando a materialidade da ação), e dois momentos envolvendo o trio que acompanha Maryam e Man, e que desafiam um pouco a lógica de exposição narrativa. No primeiro encontro, eles cantam e o teaser do que acontecerá ao longo do filme é exposto como prenúncio. Em uma cena a qual Maryam precisa decidir se continuará na jornada ou não, a câmera fica no carro com o trio que narra os pensamentos de Maryam, mostrando o seu conflito interno a partir de diálogo entre eles, como se lesse a mente da mulher.



    Um ponto que me fez refletir sobre a experiência do filme, é como mesmo encantado com os personagens, com os eventos e o clima onírico que marcava a jornada dos cinco, eu constantemente pensava no tempo de duração do longa. Não é um filme longo (1h48min), mas por conter um ritmo mais calmo do que agitado, parecia que durava mais. Esse parágrafo não tem o intuito de criticar o ritmo do filme, mas o vício que um determinado estilo de produção gera e que nos faz achar filmes fora do eixo com um ritmo diferenciado, um pouco “cansativo”, mesmo sem ser. Isso me faz sempre me perguntar se alguns filmes são chatos mesmo ou apenas estão em um outro ritmo que não o que é acostumado. 

    Sobre a evolução dos personagens, Maryam é a mais bem desenvolvida, sendo uma mulher que precisa encontrar uma maternidade a qual constantemente é retirada de suas mãos (a família que não queria aceitar a deficiência de seu filho, o dono do circo que rapta a criança) pelas pessoas ao redor. Sonia Sanjari consegue criar uma mulher onde a firmeza em continuar só vai crescendo, mesmo com desgraças surgindo. Pode se questionar sobre uma romantização da maternidade, mas acredito que o filme marque mais uma mulher tendo que fazer o que pode para ter algo que foi retirado dela, a qual ela mesma foi negada. Isso também parte porque Maryam sente dúvidas e questionamentos ao longo da jornada.

    O Grande Salto traz personagens carismáticos, acontecimentos marcantes e um mundo com ares onírico. Uma jornada bastante interessante sobre uma mulher lutando contra as privações impostas a si.




Comentários

Postagens mais visitadas