[Crítica de Livro] "Terra Alagada" de L.N. Santana

 Um intrincado, complexo e catártico romance policial.


A capa de um livro de nome "Terra Alagada" onde mostra um rio de águas escuras, a qual uma mão branca se estica. A imagem se reflete, com as águas e a mão se espelhando acima.

     Definitivamente, Terra Alagada é um daqueles exemplares que mostram a potencialidade do gênero romance policial tanto em termos de estrutura, como de assuntos abordados. Segundo livro do autor paraibano L.N.Santana, o livro parte, como vários outros livros do gênero, da descoberta de um corpo (no caso, uma drag queen encontrada morta no mangue da cidade fictícia de Abaporu) e o início de uma investigação, a qual Tibério (um intuitivo e introspectivo investigador da polícia local) começa a fazer parte e vai aos poucos revelando toda uma série de eventos no meio social e em si mesmo. Se a premissa é um tanto quanto corriqueira, a condução e os elementos tornam esse livro marcante.
    Uma coisa que me interessou assim que o livro foi anunciado foi a proposta do livro falar sobre a questão da LGBTQfobia, visto que progressivamente ao avanço das investigações, mais corpos de drag queens são encontrados o que vai gerando revolta na comunidade LGBTQIAP+ que começa a cobrar respostas e perder a paciência por uma resposta da polícia. E Terra Alagada tensiona e constrói esse clima de panela de pressão de forma magistral. Com suas 530 páginas, o livro vai delineando não apenas o horror dos assassinatos que causam o acúmulo de corpos encontrados no mangue, como o impacto disso na realidade de diferentes integrantes da comunidade LGBTQIAP+ de Abaporu, que com suas dores e cicatrizes se misturando ao horror e insegurança cada vez maior da cidade, se transforma na Gayrillha, um grupo de integrantes da comunidade que prometem tomar alguma atitude. É muito interessante o tom que Luke usa para construir esse grupo, porque partindo da dor, o autor não pede clemência de quem ler. Os integrantes da Gayrilha não estão pedindo por pena, estão com raiva, estão machucados e com muito ódio, e o direcionamento desse ódio (que determinado personagem chega a questionar as linhas entre revanche, justiça e vingança) é muito bem construído e explanado. É a partir do ódio, que o livro também mostra a fragilidade da vida urbana para com esses corpos, marcados e sempre correndo riscos.
    Curioso mesmo, é entender esses mesmos corpos ocupando locais de poder, como acontece no detalhe de boa parte do elenco investigativo ser composto por pessoas dessa mesma comunidade. Tibério mesmo é um homem que sente atração por homens, assim como outros personagens que não se identificam na heterossexualidade e/ou cisgneridade. E assim como o livro explora a formação da Gayrillha e a movimentação psicossocial que a gera, investiga também esses corpos dentro de uma corporação tão corrupta e violenta com tantas minorias como a polícia. Cria-se então a discussão sobre como mudar um sistema por dentro, sendo que esse sistema já - conscientemente - o coopta para se manter e de outras formas mantém sua própria corrupção e violência? Questões como essas vão sendo trabalhadas ao longo dos capítulos, quando fica evidente a visão que a norma vê os corpos de minorias: como descartáveis, como indesejáveis e como tão inconvenientes que não seria bom gastar tempo com eles.
    Partindo dessa investigação sobre o ódio, Terra Alagada vai, utilizando a estrutura do romance policial, investigando como todos esses personagens giram nessa roda de violência, as manutenções e as instituições que a corroboram. E é em Tibério, que o livro explora isso em detalhes. Extremamente traumatizado por eventos do passado, ao ponto de sequer se lembrar de parte da sua vida, o personagem também é a representação dos danos que instituições religiosas causam em vários jovens LGBTQIAP+. Seu arco narrativo, extremamente conectado com o arco macro da investigação, delineia o abuso, o descaso e a violência preconceituosa da Igreja Católica, instituição que assim como a polícia é exposta em sua podridão e sadismo.
    São denúncias e representações que se equilibram em uma trama policial que funciona, instiga e quando começa a revelar seus mistérios, escancara um intrincado jogo de influências, um eficiente quebra cabeças que aproveita cada um dos seus personagens de forma eficiente. Personagens que são muito bem delineados em suas personalidades e maneirismos, cada um com uma voz própria, e após o período de apresentação da primeira parte, conseguem ser lembrados em meio a tantos nomes. Tibério é obviamente um dos mais detalhados da narrativa, mas Luke reserva tempo para não deixar o mais secundário personagem ser só um nome a ser utilizado. É uma escrita que sabe valorizar as personas da narrativa de uma forma muito satisfatória.
    E se o livro perde um pouco ao não mostrar mais da Gayrillha (as cenas de caos delas são muito boas, e fica o aviso que Luke cria aqui um livro bastante violento, mas eu esperava ainda mais caos), surpreende em seu dramático final, a qual traz uma revelação muito bem feita, psicologicamente poderosa e poética, principalmente por fechar ciclos, e quase que biologicamente repetir os próprios ciclos do bioma a qual a história é tão conectado (o mangue). 
    Terra Alagada é um livro sobre ódio e dor. Sem procurar redenção, e nem sempre prometendo paz e descanso, possui um mistério muito cirurgicamente bem montado, personagens marcantes e uma narrativa catártica. Um poderoso livro, sem sombra de dúvidas.


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