New Suns: Original Speculative Fiction by People Of Color é uma coletânea de contos da ficção especulativa (horror, fantasia, ficção científica) escrito por pessoas as quais não estão alinhadas a ideia de branquitude dos EUA, o que inclui diversos grupos de minorias sociais e/ou étnicas. Editado por Nisi Shawl essa é uma coletânea muito interessante por mostrar diversos contos de escritores contemporâneos utilizando desses gêneros literários. Para essa crítica, eu decidi escolher os contos que eu mais gostei e comentá-los. Existem muitos contos nesse livro, e para não ficar um texto muito extenso, acabei optando por isso, esperando que instigue você, leitor, a conhecer mais da obra.
8- The Robots of Eden de Anil Menon (escritor natural da Índia): Anil brinca aqui com a tecnologia que nos dá uma sensação de satisfação, de não conflito, em uma história a qual o sistema tecnológico é naturalizado no dia a dia dos personagens, e analisado a partir de diálogos e situações banais. Possui um a ideia interessante sobre a própria criação da ideia de empatia a partir de obras de ficção.
7-The Shadow We Cast Though Time de Indrapramit Das (escritor natural da Índia): Esse sombrio e demoníaco conto apresenta uma criação de universo muito interessante, perturbadora até ao criar a situação de coexistência (não necessariamente pacífica) entre uma espécie de demônios com os seres humanos de um determinado local. O conto consegue alcançar um tom dramático quando foca na relação de duas personagens e a relação com a floresta sombria dos demônios.
6-Give Me Your Black Wings Sister de Silvia Moreno-Garcia (escritora natural do México): É um conto gótico rápido e simples, sobre uma pessoa temendo o momento de perder o controle novamente. Silvia é bem cirúrgica na apresentação de elementos e conflitos, e consegue criar um final satisfatoriamente sombrio.
5-Harvest de Rebecca Roanhorse (escritora do povo Ohkay Owingeh, etnia indígena presente onde se encontra os EUA): A história de um rapaz nativo americano que se apaixona/é enfeitiçado por uma mulher cervo (deer woman, no original, uma entidade indígena presente em algumas culturas indígenas dos EUA)) e começa a cometer atos em nome de seu amor, reverbera também numa espécie de vingança colonial do tratamento dos brancos com os povos indígenas. Rebecca cria aqui uma história assombrosa sobre morte, questionamentos sobre justiça e vingança e obsessão.
4-Dumb House de Andrea Hairston (escritora negra natural dos EUA): Como resistir a um mundo onde cada vez mais é difícil não ser capturado pelos algoritmos, roubos de dados e manipulação de vontades por grandes empresas tecnológicas? Esse conto é maravilhoso em propor fugas para uma realidade cada vez mais sufocante e com menos livre arbítrio (e até com excesso de vigilância e controle comportamental), ao criar um reencontro de décadas (outro ponto positivo: os personagens não são jovens, o que é mais difícil de encontrar na literatura especulativa contemporânea) em uma ambientação que mistura alta tecnologia com elementos da cosmovisão de religiões de matrizes africanas. É um conto que exala criatividade.
3-Unkind of Mercy de Alex Jennings (escritor negro nascido na Alemanha): Existe um estranhamento que perpassa boa parte dessa narrativa, uma sensação esquisita que vai se tornando cada vez mais estranha, como um mau presságio até explodir em uma revelação perturbadora que questiona a própria noção de realidade e segurança da mesma, destruindo a estabilidade de existir. Perturbador, é a história mais assustadora da antologia, explorando um horror psicológico e surreal diferente.
2-The Freedom Of the Shifting Sea de Jayme Goh: Quando eu terminei esse conto, eu quis relê-lo na mesma hora. É uma fantasia com toques de horror romântica, erótica, estranha e maravilhosamente queer. É sobre o encontro de três pessoas, interligadas por laços familiares, com uma criatura marinha meio humana, meio poliqueta (um verme marinho, parente das minhocas). É bem escrito, é poético, é macabro, é sensual e talvez um dos melhores contos de relacionamento humano-monstro que já vi. Foi inclusive o gatilho para eu escrever Amore Mio da forma como eu queria.
1-The Virtue of Unfaithful Translations de Minsoo Kang (escritor natural da Coreia do Sul): Se apropriando de uma linguagem presente em trabalhos acadêmicos de revisão acadêmica/histórica, esse conto inicialmente é confuso ao falar sobre a história de reinos no Sudeste Asiático, e como foram os processos políticos e tensionamentos geográficos até explorar o poder da tradução, a influência que esse ato de comunicação tem em relações internacionais e em meio a isso contar uma história de amor e de riscos políticos. Se já não apresentasse um conceito extremamente impressionante em sua condução, o conto ainda cutuca a história contada a partir dos homens, e como há um silenciamento para com figuras femininas e suas complexidades. Genial.
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