[Crítica de Livro] "Vita Nostra" por Marina e Sergey Dyachenko

Tensionando os limites da fantasia e ficção científica, Vita Nostra questiona a ideia de existência e humanidade.



Todas as sombras e ilusões
tendemos a acreditar
são criações de nossa própria mente enganosa
se não pudermos deixar ir e continuar perseguindo
satisfazendo nossas necessidades
nós não teremos
como esquecer a nossa sapiência
(The Quantum Enigma - Kingdom of Heaven de Epica)


    É realmente complicado falar sobre Vita Nostra. Esse livro escrito pelo casal ucraniano formado por Marina e Sergey Dyachenko (a tradução de Julia Meltov Hersev veio do russo, idioma a qual foi publicada a obra originalmente) não apenas é dotado de um clima misterioso a qual nunca entrega respostas fáceis para o leitor, como também borra as ideias de gêneros narrativos que temos.
    Em um dia de férias na praia, Sasha começa a perceber que está sendo perseguida por um estranho homem de óculos escuros. Sua mãe não vê nenhum problema, ainda que a filha nunca se sinta segura e em um determinado dia começa a viver o mesmo dia repetidamente. Atormentada pelo dia infinito, ela acaba aceitando conversar com o misterioso Farit Kozhevnikov, que pede para que a adolescente cumpra uma determinada tarefa durante vários dias enquanto durar as férias. Caso contrário, talvez coisas ruins aconteçam. Coagida e receosa da segurança de sua mãe, Sasha obedece. E vomita moedas a cada vez que nada nua na praia deserta em um determinado horário da madrugada. As férias acabam, Sasha retorna para sua cidade natal e Farit comanda mais uma tarefa: correr por um parque em um determinado horário, e mijar em um local específico. E novamente, ela vomita moedas.
    Dias se passam até que, ao terminar os estudos da escola e se preparar para a faculdade, Farit ressurge e fala que Sasha irá para um Instituto de Tecnologias Especiais numa cidade provinciana de nome Torpa. Não há escolha, Sasha terá que se mudar e começar os estudos.
      É inegável que, se houver a necessidade de classificação, Vita Nostra é um intenso dark academy (academia sombria) um gênero narrativo caracterizado por histórias que não apenas se passam no ambiente acadêmico, como também mostram o processo de aprendizado dos personagens, geralmente em situações que pesam sentimentos negativos em meio aos estudos. E Vita Nostra segue isso em uma intensidade desconfortante. Esse não é um livro agradável. O próprio início mostra que tipo de método de ensino seremos apresentados, baseado na coerção (Sasha não tem como recusar as ordens de Farit), no terror psicológico (se ela falhar ou não fizer, coisas ruins acontecerão com sua família), e humilhação (as ações que ela é obrigada a fazer). E se esse início desconforta, é necessário dizer que o livro não pega leve ao longo de sua narrativa. Há um forte clima de terror psicológico que permeia as aulas, não apenas vindo das ameaças do sinistro Portnov, como dos relatos dos próprios alunos mais velhos (estes que aos olhos dos calouros são figuras já estranhas). E se as aulas de Especialidade são interessantes e misteriosas, garantindo um gancho que chama a atenção do leitor e tenta entender o que é aquela matéria, para o que aqueles alunos estão ali, o que vai acontecer depois do terceiro ano quando eles irão para outro lugar estudar, a dinâmica de estudos é desesperadora. É impossível não torcer para que eles tenham sucesso, e não temer quando as atividades vão ficando cada vez mais difíceis e as ameaças cada vez mais palpáveis.
       E pelos estudos, que o livro vai demonstrando seu lado fantástico. É também nessa dinâmica acadêmica, que Vita Nostra desafia um pouco a sua classificação como gênero literário. É um Instituto de Tecnologias Especiais, e os exercícios e aulas tendem a dar uma ideia de ciência (o que não deixa de ser), mas quanto mais Sasha avança nos níveis escolares (o livro abarca mais de um ano de estudo, ao contrário de outras sagas que detalham um ano por livro), mais fica claro que as coisas não são bem fáceis de se entender. É muito interessante, como os autores sabem aplicar bem a própria ideia de ensino a qual você não é apresentado de cara a uma ideia holística. Não, assim como Sasha e os demais alunos, o leitor realmente vai entendendo as coisas aos poucos, e isso não apenas cria um interesse que prende dentro de uma narrativa que tecnicamente não possui ação (aqui falo no sentido que não há cenas onde os eventos são enérgicos, como cenas de batalhas ou correrias), como cria uma veracidade para a ideia que eles querem passar. Quando finalmente compreendemos o intuito daquele Instituto, o que está acontecendo e o que está sendo ensinado, por mais surreal (e acredite, o livro beira por caminhos e digressões metafísicas muito, mas muito profundas, e não tem medo de exigir do leitor uma outra possibilidade de existência e realidade) que pareça, é verossímil quando nós, após o processo de estudo, chegamos no ponto que podemos aceitar a verossimilhança daquilo. 
        Nesse aspecto, Vita Nostra poderia correr o risco de ser apenas um livro conceitual, apenas uma desculpa para soltar falas metafísicas e questionamentos sobre a existência dos seres humanos, do universo... Se não fosse por Sasha. Mesmo sendo narrado em terceira pessoa, o casal mantém firme o ponto de vista da sua protagonista em detalhes extremamente imersivos, que não servem apenas para mostrar seus conceitos mirabolantes. A jornada de Sasha, marcada por uma mistura de horror e deslumbramento com os estudos (e aqui reflito sobre como nosso sistema de ensino não é assim tão diferente, visto que trabalha bastante na pressão psicológica, ameaças - no caso ao próprio estudante - e como assim acontece em determinado parte da obra, pode levar a pessoa a seu extremo e próximo da autodestruição), é também uma jornada de desconstrução da própria ideia de humanidade. E não a humanidade como o sinônimo de ética/moral social, mas como existência de indivíduo como espécie. As transformações que a protagonista sofre ao longo da narrativa, em diversos âmbitos, exigem cada vez do leitor, assim como da própria personagem. Em determinado momento, me lembrei das narrativas de horror corporal (body horror)  onde os personagens principais mudam fisicamente. Em Vita Nostra a mudança é de um nível mais profundo, mas não menos desconcertante.
        Em relação aos outros personagens e seus relacionamentos com a protagonista, por mais que algumas coisas nunca sejam detalhadas (e é curioso como esse narrador observador nunca observa muito os outros personagens, não sem a ótica de Sasha), há construções muito interessantes, e cabe destacar a relação de Sasha com Kostya, Farit e sua mãe, que criam momentos bastantes emocionais sejam de companheirismo, horror e ódio como também sobre como mudamos com quem amamos. Essas âncoras criam as camadas humanas que o leitor precisa ter como base para uma dramaticidade narrativa além do medo ou da digressão. 
        Há algumas questões na narrativa que traduzem um ambiente dominado por conceitos masculinos, autoritários e um pouco conservadores (como o fato dos professores saberem, por exemplo, se Sasha transou ou não ou chegarem a controlar a própria decisão de sexo e uso do corpo dos alunos). Além do mais, tirando sua mãe, Sasha não tem conexões com outras personagens femininas, sendo uma personagem bem solitária nesse aspecto.
        Vita Nostra é verdadeiramente cruel, sombrio, assustador (uma cena envolvendo um bebê me fez suar frio), mas também é desafiador, instigante e apresenta uma narrativa com bases metafísicas que verdadeiramente transcende seu próprio status quo. Possui um final que exige um comprometimento de fé do leitor absurda, assim como uma sensibilidade poética que é triste ao mesmo tempo que bela. Abre uma porta para uma ideia de existência própria, e é estranho ao ponto de não oferecer nenhuma ideia do que irá trabalhar nos dois próximos volumes. É uma obra única, incômoda, e verdadeiramente deslumbrante.

Obs: Eu li as últimas vinte páginas ouvindo essa música do grupo ucraniano Go_A e particularmente deixou a emoção dos últimos momentos do livro muito mais intensos. Recomendo.


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