[Crítica de livro] "Querido Ex" e "Maldito Ex" de Juan Jullian [SPOILERS]

 Uma duologia ácida e intensa.


Contém spoilers.


   Inicialmente, eu ia fazer só resenha de Maldito Ex, mas considerando que Querido Ex tinha migrado de editora e prometia algumas mudanças, decidi fazer uma maratona dos dois livros, o que também intensificou a experiência que Juan entrega.
    A primeira vez que tive contato com a escrita de Juan foi por volta de 2019, quando em meio a polêmica da censura de Crivella para com uma obra com personagens da comunidade LGBTIAP+ na Bienal do Rio, muitos escritores disponibilizaram obras suas gratuitamente, a fim de divulgar a literatura feita por pessoas da comunidade. Foi por aquele ano que me deparei com uma das versões da história de um rapaz que escreve cartas para um ex, que como o subtítulo aponta acabou com a saúde mental, ficou milionário e virou uma subcelebridade
    Essa nova versão tem mudanças significativas, ainda que não tantas. Aqui vamos encontrar novamente a escrita mordaz de Juan, ácida, repleta de referências pop, por vezes crua que destila sobre a conturbada relação dos dois personagens. Uma relação marcada por abusos emocionais, manipulação, brigas, racismo e até mesmo uma tentativa de abuso sexual. Querido Ex é uma narrativa incômoda, por vezes dolorosa, que junto com seu ritmo acelerado lança quem está lendo numa espiral de conflitos emocionais. É também irregular até mesmo em sua quebra de expectativas. Não irregular em termos de técnica narrativa, mas no que a gente espera sobre desenvolvimento de personagens. Uma das coisas que mais gosto é como o personagem protagonista é falho, tem recaídas com sua própria perspectiva sobre o fim desse relacionamento, e não é nenhum pouco anjo perfeito (algumas vezes, com atitudes bastantes mesquinhas e até covardes). Juan mantém aqui muito da obra que o fez ter sucesso. É fascinante ver como as críticas sociais se misturam a desabafos de uma forma orgânica, equilibrada. Mesmo que seu personagem seja emocionalmente intenso, os elementos textuais são muito bem colocados.
    Sobre essa nova versão, talvez a mudança mais positiva seja o tratamento com a pesada cena de abuso sexual que acontecia na outra versão. Não, essa crítica não está dizendo que abuso sexual não deva ser discutido na literatura. Deve ser, tem que ser. Temas pesados podem e devem ser trabalhados, sim! E acho muito mais interessante como Juan trabalha esse tema nessa versão, principalmente ao não concretizar e mais tarde não fazer o protagonista agradecer por tudo que o ex fez. O que acho que era um dos pontos negativos mais pesados da outra versão...
    Assim como o final. Sim, eu acho Querido Ex uma obra forte, intensa e importante. Uma coisa que comentei em 2019 em redes sociais era que como era necessário termos obras feitas por pessoas da comunidade discutindo relacionamentos abusivos. Assim como as pessoas héteros e cis, a comunidade sofre sim de casos do tipo (afinal, seres humanos estão em constante conflito de poder), relacionamentos que destroem vidas, algumas vezes parcialmente, outras por completo. Livros como o de Juan e, mais recentemente, da Carmen Maria Machado precisam existir. Se a educação sexual já é falha para as vivências hétero cis, para a comunidade LGBTIAP+ é algo ainda mais frágil e escasso. Precisamos, sim, de narrativas que mostrem que o amor é possível, com imagens positivas, e clichês românticos, mas para nosso próprio bem e criação de um imaginário que reflita nossa própria complexidade, também precisamos confrontar algumas dores.
    Isso não quer dizer que eu goste do final desse livro. Odiei na primeira lida, odiei menos na segunda (por já ter ficado puto na primeira vez). Não fazia sentido a morte do protagonista, e principalmente a última carta... O sabor amargo de que o ex sempre continuaria vencendo usando da imagem do protagonista (como já fazia em vida)... Então...
    E aí, veio Maldito Ex.

    Não sou monstro, nem vítima. Sou alguém no meio disso. Essa frase não poderia definir melhor a história do segundo livro, que serve ao mesmo tempo como evento concomitante ao primeiro, como sequência. Em Maldito Ex, somos lançados na versão de Tiago, o ex namorado, a partir do impacto do final do primeiro livro. Aqui Juan abandona o formato epistolar (ainda que uma ou outra carta apareça), e investe na prosa clássica. 
    Não apenas o formato é diferente, como a própria voz do protagonista. A primeira coisa que salta é como Juan criou dois personagens tão distintos. O trabalho de delinear Tiago e Ele (como é definido o protagonista do primeiro livro) é muito competente. Um usa palavras difíceis para se expressar, outro de referências de obras da cultura pop; um é egoico e narcisista, outro é inseguro e está aprendendo a se amar. 
     E no caminho, o segundo livro complexifica ainda mais sua duologia.
    Ver o lado de Tiago é ver um rapaz criado em um lar disfuncional, por uma mãe que logo negou qualquer aproximação de carinho e gentileza. A perspectiva de uma pessoa que sempre precisou manter as aparências, escondendo até mesmo um comportamento autoflagelante de literalmente arrancar os próprios cabelos. A carga emocional de Tiago é realmente pesada, sufocante até. Sua voracidade do ego tem uma origem e ainda que traga uma falsa segurança, também o fragiliza.
    Mas isso não diminui o que ele fez. E é esse o grande ponto do segundo livro. Sim, Tiago tem uma família complicada, uma carga pesada em seus ombros e deveria ir para a terapia. É meio impossível não sentir empatia em alguns momentos com seus processos psicológicos, mas isso não diminui o livro anterior. Juan deixa claro que as ações racistas e abusivas não advém apenas de monstros. Tiago tem problemas, mas ainda assim está em um privilégio branco ( e como próprio reconhece, desfruta e abusa ao ser conivente com a própria estrutura) e na cena de abuso, em uso de um poder sobre Ele
    E se o epílogo dava um sabor amargo a narrativa, é até gratificante ver que Tiago sofre com as consequências de seus atos (e seu próprio costume de subir em meio a imagem Dele, problematizada). Pode-se questionar até que ponto a punição deveria ir, mas Juan não deixa seu personagem impune, isso é uma certeza (ainda que o final agridoce, tensione como ele sempre vai ter uma chance enquanto o ex namorado não teve, o que reitera um aspecto trágico da obra.).
    ...Ex é uma duologia incômoda, dolorosa, mordaz e trágica. O que não deve ser visto como defeitos, como um sinônimo de obra de má qualidade. Longe disso, Juan cria aqui uma experiência literária intensa, crua e que propõe a trazer um olhar sincero sobre relacionamentos afetivos, sistemas de poder, funcionamento das mídias (esse um tema mais forte no segundo livro). Pode não ser cômoda para alguns, mas é algo único e impressionante.

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