Sobre horror, cidades amaldiçoadas e a comunidade LGBTQIAP+ (um prefácio para "Iah")
Um texto presente na introdução do meu livro Iah.
Aviso de gatilho: homofobia, idealização suicida, automutilação, assédio sexual.
Visualizei Iah, pela primeira vez, por volta de 2015. Na época, eu estudava Ciências Biológicas, estava fritando meu cérebro ao tentar entender uma matéria da cadeira de Bioquímica e também estava enfrentando uma situação complicada com meus pais por conta da minha sexualidade. Eles haviam descoberto da pior forma possível que eu era gay, coisas horríveis aconteceram, minha depressão estava pior do que nunca, e várias outras merdas.
Foi quando surgiu o vislumbre de uma cidade amaldiçoada. Primeiro, o fato que pessoas não conseguiam sair de lá, segundo que coisas horríveis aconteciam. Não era um conceito novo, mas eu me empolguei e baseado, principalmente, na floresta norte-irlandesa mal assombrada de Ballyboley, e num conceito da música de Rosenrot da banda alemã Rammstein (a qual um jovem faz de tudo por uma moça), eu comecei a pensar em uma narrativa que se passasse nessa estranha cidade mal assombrada fictícia. Surgiram duas ideias de livros: um romance longo de uma família que sofria nessa cidade amaldiçoada e um livro de contos que narravam as origens da maldição, além da perspectiva de outros personagens. A primeira ideia nunca foi para frente, sequer consegui passar da página 30, enquanto o livro de contos chegou a 160 páginas.
O arquivo ficou descansando no meu drive por alguns anos.
Chegamos em 2020, e entre o surto da pandemia do COVID-19, o medo de morrer, as notícias ruins e a necessidade quase insana de continuar produzindo, tentando oportunidades e ignorando o fato de sendo brasileiro estar em um verdadeiro cenário pós-apocalíptico onde o governo se esforça em tentar nos matar (afinal, um governo que rejeita vacinas, espalha fake news negacionistas, estimula a venda de remédios que não tem eficácia contra o vírus - entre outras coisas - não está muito interessado no bem estar da população), eis que surge a chance de mandar um original para uma editora grande especializada em comercialização de literatura de horror, e outros gêneros da ficção especulativa.
Completamente alucinado por dinheiro (afinal, havia uma compensação financeira para os vencedores), e pela oportunidade de ter um livro saindo por uma editora com mais alcance, fui atrás do que poderia ser aproveitado para mandar. Lembrei do manuscrito de Iah, e fui reler para ver o que poderia ser corrigido antes de inscrever a obra.
Estava uma merda. Estava uma completa e absurda merda.
Sabe o termo cringe? Então, estava cringe. Curiosamente, não a ideia, eu ainda gostava do formato fix up que a obra tinha, e gostava de algumas coisas de alguns contos, mas a escrita era terrível. Muito ruim. Uma desgraça. Eu nem conseguia aproveitar algo cortando frases, e a coisa sequer era um problema de gramática. Era textual em sua forma mais pura.
Acabei então, reescrevendo tudo. Não apenas alguns contos que se conservaram (outros foram completamente descartados), mas também expandindo e corrigindo coisas da própria história e sua mitologia.
Porque uma coisa que eu havia percebido na obra é que ela estava muito hétero cis e branca. Foi chocante encarar Iah e ver uma outra perspectiva de narrativa que já não cabia em mim, e eu sabia que meu processo como escritor tinha passado por modificações ao longo dos anos (Relicarium mesmo é uma batida no chão para mim mesmo em me desvincular de alguns padrões narrativos de personagens e história). Ao encarar Iah e pensando em sua reconstrução, ajustei as ruas e quarteirões para o que eu acreditava que mais combinava comigo.
Foi nessa oportunidade de escrita que eu me deparei com a oportunidade de falar sobre violência, LGBTQIAPfobia e angústias que eu havia colecionado (a contragosto, por imposição) até aquele momento. Ainda que eu estivesse em um outro momento de vida em relação a minha sexualidade, relação familiar e outros setores, eu pensei naquele Matheus de 2015 que estava angustiado e que na terapia sempre denominava Aquela Noite como uma das piores de sua vida. Pensei em mim quando criança temendo ser descoberto pelos meus pais, por já entender de alguma forma que era diferente. Lembrei de quando fiquei esperando a Igreja abrir, sob o sol quente fortalezense, antes da aula de Educação Física, em uma tarde de quarta feira, com a farda do colégio, esperando para rezar e pedir perdão por ter me masturbado pensando em homens.
Lembrei quando quis me matar por ser gay. Mais de uma vez.
Lembrei quando os garotos sabiam sobre mim mesmo eu tentando, inutilmente, performar uma masculinidade que não me cabia e que não servia para me proteger de seus comentários (ou até de coisas físicas).
Lembrei quando me cortei, lembrei quando falei para mim mesmo que nunca iria beijar um garoto. Seria um adulto que não teria relacionamentos. Lembrei quando ouvi merda na rua, lembrei dos olhares. Lembrei de, mesmo adulto na faculdade, ter medo de segurar a mão do meu namorado. Lembrei Daquela Noite.
Lembrei de um assédio sexual sofrido por ser gay.
E reconstruí Iah. Como expurgo, com raiva, com ódio, com ferida e com tristeza. A partir do conceito dos filmes de terror de estereotipagem de personagens queer como vilões, ameaças, demônios, reconfigurei a história. Aceitei o projeto abortado, o demônio, a má influência, mas também converti em uma ambiguidade. Um demônio que também é padroeiro, um vilão que é vítima. Iah é sobre tragédia e também não é, porque há mais de um personagem, há mais de um final. Há sim desgraças nesse livro, e há sim passagens pessoais sobre violências que sofri, há sim finais seguros (felizes, acho que é muito para esse livro), e há sim finais sombrios e pessimistas. É um livro bastante pessimista, violento e angustiante, mas era o que eu precisava escrever.
Isso não quer dizer que todos os personagens LGBTQIAP+ desse livro terminem mal. A história de Max é trágica, a de outres não necessariamente.
A prova que Iah estava pronto em 2020.
Sobre o concurso: não vingou, e infelizmente, Iah não foi selecionado. Ainda tentei em outros concursos, tentando achar a oportunidade perfeita para que o livro fosse lançado. Até julho de 2021, eu ainda não tinha tido nenhuma chance.
E aí veio a trilogia Rua do Medo, adaptando livremente a série de livros de R.L.Stine.
E aí, minhas pernas foram levemente quebradas.
Então Rua do Medo copiou Iah? Óbvio que não!
Mas Iah também não copiou a trilogia Rua do Medo.
Passei três semanas refletindo, analisando, matutando como se diz aqui no Ceará, a respeito do que fazer com Iah. E o veredito que cheguei foi: de simplesmente lançar. (na verdade, acho que eu deveria ter lançado há mais tempo, mas aquilo, né?)
E aqui eu não nego que haja semelhanças até de conceitos entre esse livro e a trilogia de filmes dirigido por Leigh Janiak. Também não se trata de um texto procurando comparações de qualidade. Não digo que meu livro é melhor ou pior do que algo, acredito em sua potencialidade e sei reconhecer suas características. Por isso mesmo, ao reconhecer (não apenas que Iah foi escrito antes) que as duas obras possuem características próprias (a trilogia foca no subgênero slasher, enquanto esse romance foca no gótico e no art house horror; ainda que as duas obras versem sobre violência ao longo dos anos, Iah fragmenta e borra a linearidade; Rua do Medo é bem mais divertida e mais leve psicologicamente que esse livro que é mais depressivo, pessimista), eu decidi lançar esse livro.
E se em um primeiro momento, eu fiquei incomodado com as semelhanças (é impossível não ficar), também reflito como duas pessoas em locais diferentes do continente americano pensam sobre a violência contra a comunidade em cidades amaldiçoadas. Amaldiçoadas pela violência que comete com seus próprios indivíduos ao longo de séculos/décadas, proporcionadas por uma Homem que constantemente se diz homem de bem, homem direito, homem de família, alguém a qual sua vida está acima dos outros.
Não nego as semelhanças, acredito que após tanto tempo estejamos desenhando os horrores cometidos e apontados para nós, redirecionando quem são de fato os responsáveis, os monstros depravados que violentam a cidade.




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