[Crítica de Filme] "Eternos" (Dir: Chloé Zhao)

A fantasia adulta mitológica da Marvel





    Baseado dos quadrinhos de Jack Kirby, Eternos é um filme de fantasia científica que conta a história de um grupo de seres imortais, que obedecendo as ordens de seres chamados Celestiais, são responsáveis por proteger o planeta Terra de criaturas predatórias chamadas de Deviantes, e auxiliar na evolução tecnológica dos seres humanos. Tendo chegado a sete mil anos no planeta, e passado alguns séculos separados após erradicar os monstros as quais foram designados lutar, o grupo precisa se reunir a fim de evitar uma nova ameaça que pode destruir o planeta.

    A primeira palavra que me veio a mente ao terminar a exibição de Eternos foi contradição. Isso porque a sensação foi que o filme não é um filme típico da Marvel. A produção encabeçada pela direção da chinesa Chloé Zhao segue um estilo e ritmo muito diferentes dos outros 25 filmes lançados pela empresa. A história dos dez Eternos, seres que poderiam ser considerados deuses (e que segundo a narrativa influenciaram a percepção religiosa/cultural de diferentes povos humanos a partir de nomes como Thena, Phastos, Gilgamesh ou Ikaris), é primeiramente de um mundo distinto. Não é a primeira vez que vemos seres de outros planetas nas produções da Marvel (Thor e Guardiões das Galáxias atualizaram a percepção de vidas em outros planetas e os conflitos que isso gera), mas no caso de Eternos a percepção é etérea e principalmente cosmológica.

    Essa outra natureza, principalmente vinculada a ideia de tempo, é a responsável por trazer um tom muito mais sério e até melancólico para a narrativa. Por presenciarem sete mil anos de acontecimentos sem a possibilidade de interferir diretamente, psicológica e ideologicamente cada Eterno começa a ser afetado. Se a protagonista Sersi (Gemma Chan) mantém uma admiração e fé inabalável na beleza da Humanidade como um todo, Phastos (Brian Tyree Henry) já vê tragédia principalmente por colaborar com o avanço tecnológico que misturado com o uso indiscriminado de alguns grupos gera tragédias, ou Druig (Barry Keoghan) que possui o arco mais interessante ao ter o maior poder de interferência (sua habilidade advém de controlar a mente de pessoas) e a maior sensação de impotência por não poder evitar guerras e genocídios. E é nisso que Eternos chama a atenção ao trazer as inquietações que regulamente temos ao observar a História, e em como isso gera diferentes sentimentos e impactos para cada pessoa de um grupo. É sobre deuses questionando seus deveres, suas próprias fés e o que faz sentido quando eles mesmos estão limitados. Nesse ponto, a produção cria momentos muito interessantes, ao trazer esses atritos internos e interpessoais.

    Sendo longo e, principalmente tendo muito o que contar, (afinal estamos falando de sete mil anos + um plot nos tempos atuais), é inegável que haja a inserção de flashbacks, e surpreendentemente a maioria funciona. Ainda que haja alguns momentos extras, que poderiam ser diminuídos, o filme consegue criar passagens bastante orgânicas na sua volta temporal. Uma em particular se passando no período da invasão de Abya Yala (América), consegue desenvolver não apenas Thena (Angelina Jolie) e Druig como mostrar o ponto de separação dos Eternos, de uma forma fluída, dando tempo e espaço para que o espectador possa absorver o que está acontecendo. Isso me surpreendeu, porque eu imaginava que o filme seria bem mais corrido do que de fato é. Obviamente, há momentos de explicação que poderiam ser cortados ou trabalhados de outra forma (o próprio início nos tempos atuais, a qual Sersi explica para o namorado humano o que ela é, não é tão interessante assim), mas de forma geral a produção consegue equilibrar um ritmo onde observa bastante aqueles personagens (se refletindo até mesmo nas cenas de ação que não são picotadas, e montadas de forma que o espectador consiga entender a absorver o que está acontecendo).

    Há muito acontecendo em Eternos, e isso inegavelmente respinga nos próprios personagens. Se temos arcos interessantes como o de Druig, Sersi e Phastos, outros acabam não sendo tão bem trabalhados. Gilgamesh (Ma Dong-Seok), por exemplo, mesmo sendo carismático, é resumido a mordomo gentil de Thena por conta de sua doença (e o fato de morrer pra protegê-la é bem...). Kingo (Kumail Nanjiani) segue o mesmo problema: carisma, mas majoritariamente reduzido a alívio cômico junto com o outro personagem indiano da história. Makkaris (Lauren Ridloff) é um caso a parte: não possui um arco definido, mas o carisma da atriz rouba a cena, e é agraciada com uma personagem esperta, bastante ativa e protagonizando a melhor cena de ação do filme (eu quis gritar de empolgação, inclusive).

    Mas porque Eternos é contraditório? Mesmo possuindo um tom mais sério, reflexivo e cosmológico ( uma das cenas é um êxtase para quem gosta de entropia e funcionamento do Universo), além de trazer mais violência que o habitual (há desde assassinato, suicídio como um pouco de gore), o filme se sabota pelo mesmo velho problema dos filmes da Marvel: o humor. O arco de Duende (Lia McHugh) é o mais prejudicado com a inserção de tiradas cômicas. Em todo momento que vemos pedaços dos seu drama que deveria ser angustiante o suficiente para justificar suas decisões no terceiro ato, nunca levamos a sério porque o filme não permite. Pelo excesso de zombação, o filme sabota a própria exploração do psicológico de seu personagem. E isso se estende a Gilgamesh, Kingo e até mesmo Phastos (que apesar de ser um personagem gay interessante e com um drama sólido, invariavelmente cai em um rápido momento de gay cômico que é bem desnecessário).

    O mesmo pode se dizer das referências ao próprio Universo. Ainda que a citação a Thanos seja a mais bem aproveitada dentro do plot (mas que facilmente poderia ser substituída por qualquer outra), nos momentos que a produção precisa se encaixar com os outros filmes causa um estranhamento, uma quebra de imersão, visto que durante boa parte toda a construção é de algo distinto, fechado em si mesmo. A sensação é que Eternos poderia ser um filme solo que funcionaria da mesma forma.

    Em termos visuais, é um filme que entrega imagens muito interessantes. Desde momentos mais intimistas, misticos (as ilusões de Duende são muito interessantes como na cena de narração na Babilônia) como quando abraça o transcendental em imagens de construções surreais de tão grandiosas. Mesmo que o CGI não seja uma obra prima do gênero, o filme consegue ser satisfatório.

    Eternos não é um filme perfeito. Há alguns excessos, algumas faltas, decisões narrativas questionáveis, e há de se revirar os olhos para algumas ideias sobre a dita evolução humana, além da própria sabotagem que sofre por algumas características típicas de produções da Marvel que entram mais que nunca em contraste com uma narrativa que procura outros campos e sensações. Mesmo assim é um filme interessante, que ousa onde pode e traz um instigante drama milenar sobre deuses em crise, e o papel e importância dos humanos à frente dos eventos macro do Universo. 

    

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