[Crítica de Livro] "Melodia Imperfeita" de Henri B Neto

 A cacofonia da vida adulta



    Após alguns anos separados, a dupla musical formada pelos gêmeos Johnny e Lia anunciam uma turnê de nostalgia dos grandes sucessos após o controle da pandemia da COVID-19. Sendo um grande imenso, não comparável, o maior de todos, fã da dupla, Danilo arrasta seu namorado para um shopping no Rio de Janeiro para ambos concorrerem a um par de ingressos e direito de conhecer pessoalmente os grandes ídolos pop dos anos 2000 (já que infelizmente, Danilo não conseguiu comprar os ingressos da maneira convencional). Em meio as provas da organização, Danilo confrontará não apenas o ambiente de competição, como seus próprios anseios e questões não resolvidas até aquele momento.

    É uma experiência interessante e extremamente prazerosa acompanhar os trabalhos de Henri. Criando excelentes, e bem construídos, recortes de diferentes momentos da vida dos seus personagens, o autor possui um carisma nas palavras e uma técnica de prender a atenção do leitor em ficções dramáticas que pesam bem o tom leve com momentos mais reflexivos e intimistas. E é ainda mais interessante como ele vem construindo uma própria perspectiva sobre o amadurecimento na vida adulta. Na(s) obra(s) anterior(es) do autor, a saga Natan & Lino, o tema principal é a compreensão das mudanças em uma fase que, supostamente, já era para ser sobre consolidação. "Vocês acham que nossos pais mentem para a gente sobre este lance de crescer?"Lino questiona em determinada parte da história, ao ver sua vida entrando em mudanças e ter que aceitá-las, e não apenas essas, como todas as outras que virão. Ninguém avisa, mas a fase adulta possui suas próprias transformações.

    Mas se a saga de Lino é sobre Mudança, em Melodia Imperfeita o principal tema é a Estagnação. Sendo uma espécie de outro lado da moeda, um lado mais sério e melancólico, a jornada de Danilo é sobre quando não temos acesso as mudanças que são prometidas na fase adulta. Sim, crescemos e conquistamos. É o esperado, mas e quando isso não acontece? E quando parece que todos os outros estão conquistando enquanto nada evoluía, [...] continuava preso nesta rodinha de hamster, fazendo as mesmas coisas dia após dia, e obtendo os mesmo resultados. É uma outra turbulência causada por diversos fatores e variáveis e que geram outro tipo de pressão, um tanto quanto mais cruel e solitária, e é brilhante como a jornada pela busca de ingressos em um shopping engatilha tantos questionamentos e dores no personagem. Henri tem uma sensibilidade incrível ao, em um dia, trabalhar tantos temas (consequências de um personagem repleto de acúmulos e machucados) em uma jornada que no intimista encontra um tom épico, de grandes mudanças. É uma história divertida sobre gente de quase trinta anos se digladiando em um shopping por um prêmio incrível, mas também é sobre alguém desabafando sobre coisas que não tem tempo ou suporte suficiente para trabalhar e curar. Sobre as metas irreais e desonestas que a vida nos obriga a encarar, sobre saúde mental e estruturas racistas (a discussão sobre como a ideia de Sorte não é a mesma para determinados grupos é um dos momentos mais crus e pertinentes do livro).

    Não apenas por sua sensibilidade, mas por sua técnica narrativa, Henri se destaca ao tecer com maestria a materialidade de Johnny e Lia, como figuras as quais soam reais e dignas de toda aquela competição. Misturando desde notícias de jornal, tweets e posts do Instagram, o autor nos impacta com a presença dos dois irmãos mesmo que tecnicamente nunca os mostres no plano narrativo dos acontecimentos. É incrível como em determinado momento, eu queria muito que eles tivessem confirmado uma turnê na minha cidade também.

    Melodia Imperfeita é um livro intenso em igual medida de carisma/diversão (porque sim, a história não é só sobre dor e há catarses muito bem vindas de esperança e prazer) com uma reflexão afiada sobre os processos de amadurecimento e a dinâmica cruel que a sociedade impõe. É uma história sensível, emocionante, com personagens carismáticos (como sempre, Henri apresenta muito bem coadjuvantes marcantes), e um tom de esperança que emociona. É muito aconchegante acompanhar as reflexões dos personagens de Henri, porque apesar de momentos que em toca partes sensíveis, o cuidado e a esperança são contagiantes em meio a uma fase que parece repleta de cacofonia e barulho altos o bastante para não deixar que nem nós possamos nos ouvir direito. 

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