[CRÍTICA DE LIVRO] "Farras Fantásticas" organizado por Ian Fraser, Ricardo Santos e João Mendes

 Uma antologia de afetos


uma capa de livro chamado Farras Fantásticas, a qual mostra a ilustração de um bar com uma iluminação amarela, um homem sentado em uma mesa de bar, um casal dançando a qual a mulher tem um buraco onde fica o rosto e um rapaz pendurado de cabeça para baixo no teto tocando um objeto de percurssão.

    Organizada por Ian Fraser , Ricardo Santos e João Mendes, Farras Fantásticas é uma antologia de contos de ficção especulativa (um termo guarda chuva para gêneros como terror, ficção científica, fantasia...) de autoria de diferentes escritores dos nove estados do Nordeste, com histórias que se passam nas festividades populares da região.
    Há dois grandes eixos que parecem conduzir essa antologia, sendo um deles a ideia da afetividade das festas escolhidas para ilustrar os contos, onde aquele ambiente coletivo está vinculado a uma ligação emocional com o drama interno dos personagens, afetando-os de alguma forma, seja pela nostalgia, reflexão ou ajudando a lidar com algum evento interno ainda não muito bem resolvido. Esses contos garantem uma atmosfera intimista, de conexão, acertando em cheio a importância que aquelas festas têm com a memória não apenas de indivíduos, como do próprio povo a qual participa, ou as conexões familiares. Essa delicadeza é sentida em contos como A Luz de Vó Alzira de Laís Lacet (um conto que me pegou profundamente, considerando que minha vó era uma rezadeira conhecida no meu bairro e que faleceu de forma traumática em setembro do ano passado, e a personagem da história também está aprendendo a lidar com a falta e com a herança da habilidade passada pela parente), A Benção de Dona Lourdes de Thiago Lee (que também narra a procura de conexão a partir do luto, a reconstrução de laço e a própria ideia do que forma uma família), Ilha D'Água de Henrique Ferreira (um sensível conto sobre herança e a relação de pai e filho, religiosidade e uma ameaça em São Luís do Maranhão), Miolo de Boi de Auryo Jotha (um conto sobre luto e memória, que surpreende ao flertar com o terror a partir do vale da estranheza na festa dos Caretas), Arrebentação de Carol Vidal (uma história intimamente ligada com a religião de matrizes africanas, ao também falar sobre o seguir adiante a partir da perda). Em boa parte dessas histórias, os personagens estão em crise, e é a partir das festividades e do fantástico que nelas se instaura, em uma naturalidade do encanto, que há processos de cura e compreensão.
    Mas nem apenas da conexão de um indivíduo com sua memória afetiva se forma e vive as festas populares. A própria palavra, popular, remete ao povo, e o que diferencia essas festas de muitas outras, é como elas estão vinculadas a memória de uma comunidade daquele local. Dessa forma, Farras... também nos apresenta contos que falam muito do grupo como um todo, sobre o impacto daquele imaginário coletivamente. Temos contos poderosos como O Odu Quer brincar na festa de Mariana Madelinn (um dos contos mais fortes do livro ao estar vinculado com toda a ideia de espiritualidade de matriz africana, não linearidade temporal de um grupo que ao longo dos tempos luta por sua autonomia e contínua resistência, e a responsabilidade de seguir e honrar para mudar), O Dragão Fugiu! de Cesar Miranda (uma narrativa que se destaca não apenas pelo formato escolhido para a narração -uma reportagem - como pela ideia de especular a partir de conceitos como guerras simbólicas, memória coletiva para narrar uma batalha sobre o imaginário e veracidade histórica na Bahia) e Qual a cor do oceano? de Henggo (um conto sci-fi que vai fundo na importância da festividade como preservação de memória ao refletir sobre mortalidade em um ambiente distópico onde pessoas não morrem e os avanços tecnológicos apagam identidades e a natureza)

    Ah, Odete, a obsessão por continuarmos vivos transformou nossa existência em um grande purgatório de almas enlatadas. Viramos uma raça desmemoriada que perambula sobre as cinzas e os escombros da própria história, minha querida.[...] Nossas rugas são um ato político, minha amiga. (Trecho de Qual a cor do oceano? de Henggo)

    Se a afetividade individual e coletiva marca uma boa parte da antologia, há momentos mais descontraídos e que ousam outros humores, como fica claro no irreverente Olha pro céu, meu amor de G.G. Diniz (o conto licantrópico mais Like a Prayer que você lerá), o perturbador Usura de Igor Chacon (uma história de maldição muito eficiente em incomodar pelos pecados dos seus personagens e o preço pago por eles), o curioso Capa Preta de Guilherme Ramos (que utiliza da estrutura de um tipo específico de história de assombração brasileira, a qual um apaixonado rapaz procura saber sobre uma moça que conheceu em uma noite, subvertendo um pouco e dando mais escopo para uma história já batida), e o desafiador Entre ver(s)ões de Chico Milla (que ao brincar com as lógicas de utopia, distopia e desconfiança, cria uma narração de paranoia e não confiável em suas verdadeiras intenções sobre ser ou não uma crítica a negacionismo).
    Como ponto mais fraco da antologia fica o conto A Esposa do Diabo, que ao tentar ser uma história que critica a violência contra povos romani, acaba por cair em estereótipos ao procurar a ligação entre o narrador e a personagem a partir da sensualidade e sedução dela, e usar o elemento da licantropia em uma narrativa que mais desumaniza e mistifica que auxilia na percepção do grupo serem vítimas do preconceito.

    Farras Fantásticas é uma antologia incrível. Fluindo entre gêneros e humores, indo do intimismo a observação dos grupos humanos, é uma leitura incrível, que versa e encanta sobre as tradições das festas nordestinas, reverenciando sua memória, sua importância como um todo ou simplesmente as coisas estranhas que podem acontecer em uma noite ou outra.

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