[ESPECIAL] Produções Audiovisuais Indígenas Parte 1

     A definição de povo indígena é qualquer povo, grupo étnico, que seja originário/nativo de uma região muito antes de um processo colonizador, com tradições e culturas próprias e compartilhadas por uma comunidade, e mesmo após um processo colonizador não se identifique com a cultura do colonizador. Tendo essa definição em mente, todos os Cinco Continentes possuem grupos indígenas em seus territórios (sim, isso inclui a Europa, que mesmo sendo o Continente original dos brancos dos outros continentes -e por consequência, dos colonizadores -, possuem ainda grupos indígenas como os Saami, os Tártaros da Crimeia, os Nenets, que são minorias que como tantas outras tiveram que resistir a processos coloniais -sim, dentro do próprio continente- e de assimilação das nações europeias.), e indo em contra mão a ideias preconceituosas e retrógradas, os povos indígenas estão presentes na Atualidade, não apenas como produtores de conhecimento acadêmico, como artísticos. 

    Infelizmente, por diversos motivos causados pelo racismo, por mais que hajam muitos nomes ao redor do mundo produzindo obras interessantíssimas sobre as vivências do próprio grupo, a divulgação não é a das melhores. Ainda há um grande problema em fazer com que essas obras circulem ainda mais e também atravessem as pessoas não-indígenas (afinal, tendo contato com essa obra, discursos preconceituosos podem ser destruídos e visões de mundo mudadas). Pensando nisso, resolvi, fazer uma postagem com dicas e alguns comentários de produções realizadas por pessoas indígenas. O meu critério para a escolha dessas produções é que eles precisavam ser dirigidos por pessoas indígenas. Codireções também entraram na lista, mesmo se fosse com não-indígenas. Dito isso, vamos da primeira parte (de muitas espero), desse especial:

*Sikumi (2008). Dirigido por Andrew Okpeaha MacLean (povo Iñupiaq): Esse curta metragem de reflexão moral, segue o dia de um rapaz inupiaq que se depara com um assassinato em um dia de caçada na neve. Com um cadáver a ser colocado no trenó para voltar a comunidade, Apuna precisa argumentar e ter uma decisão quando o integrante da comunidade que realizou o assassinato argumenta sobre o impacto que aquele evento terá em sua própria vida. Bem dirigido, e evidenciando bastante o rosto dos atores e a mudança que a conversa sobre o que fazer ou não com o corpo pode gerar, esse curta dramático consegue passar bem o dilema moral a que se propõe.


*Terra sem pecado. Dirigido por Marcelo Costa (povo Krahô): Esse curta-doc traz diversos relatos sobre como é ser indígena e participante da comunidade LGBTQIAP+, traçando apontamentos sobre como a colonização trouxe preconceito para as comunidades indígenas, quando este preconceito não é originário dos próprios povos. 


*Hashtl'ishnii (Mud) 2018. Dirigido por Shaandin Tome (povo Diné): Esse melancólico curta segue Ruby (Trini King), uma mulher que aos pouco está morrendo (representado por seu corpo aos poucos está se transformando em lama, como o título nas duas línguas sugere), e que ainda confronta o vício em álcool, o preconceito dos não-indígenas que obriga o próprio filho a expulsá-la de uma lanchonete, além da relação conturbada com o mesmo. Com uma atuação caótica, mas crua, Shaandin segue os últimos momentos de uma mulher assombrada pelo ao redor, e que infelizmente, não tem muita redenção antes do corpo abandonar aquele plano.


Você pode assistir o curta por esse link.
https://vimeo.com/420123376

*Sami Blood (2017). Dirigido por Amanda Kernell (povo Saami): Iniciando no velório da irmã mais nova da protagonista, esse longa metragem segue as lembranças de Christina/Elle-Marja, uma mulher Saami, que renegou a cultura do próprio povo ao longo dos anos. Partindo desde a infância, onde assim como outras crianças Saami (e tantas outras indígenas ao redor do mundo), quando foi submetida a um processo de associação pelo governo sueco (além de violências como ter o crânio medido, a língua proibida, ataques de crianças não indígenas), e ao contrário de sua irmã renegou a cultura do próprio povo. Baseado em algumas memórias da avó da diretora, esse é um filme amargo, a qual mostra os processos de destruição da identidade de uma pessoa (no início do filme, Christina repudia os costumes dos parentes após o enterro, concordando com as pessoas suecas do hotel onde está de que os outros são selvagens), a partir de uma série de violências. Dirigido de forma minimalista, e com flerte na forma de biografias comumente possuem, é uma direção incômoda e mais sombria.


*Mãtãnãg, A encantada (2019). Dirigido por Shawara Maxacali (povo Maxacali) com co-direção de Charles Bicalho: Esse curta metragem animado apresenta uma narrativa baseada na cosmovisão do povo Maxacali, a qual o marido de Mãtãnãg morre e começa sua jornada ao mundo espiritual. Sem querer se separar do seu amado, a jovem o segue pelo mundo dos Espíritos e Encantados, e presencia diversos acontecimentos a qual, viva, não teria contato. É uma animação incrível, não apenas pela própria jornada, como pela própria representação dessa jornada, com um trabalho de som muito bem feito em misturar sons tradicionais do povo, com uma trilha sonora mais atmosférica que vai desenhando o Outro Mundo a qual a personagem presencia.


Continua...




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