[Crítica de Série] Sandam (Episódios 1 a 3) (Com Spoilers)

 O sombrio começo da História das Histórias



frame da série Sandman, mostrando o personagem Morpheus, figura masculina branca de cabelos escuros lisos, vestindo sobretudo preto ajoelhado à frente de um corvo. Os dois estão protegidos por uma murada e contra a visão da chuva caindo.


    Sim, faz muito tempo que não escrevo por aqui. Esse ano não tá sendo fácil e acabei me desmotivando na escrita desse blog, mas SANDMAN FOI LANÇADA e vencendo todos os pensamentos de ninguém se importa com o que tu pensa a respeito, decidi me manifestar sobre o que achei da adaptação da obra prima de Neil Gaiman.

    Muito desse sentimento vem, porque Sandman é minha história de fantasia preferida de todas. Eu conheci a graphic novel no Primeiro Ano do Ensino Médio, quando ao ler o livro didático de Literatura (o único livro didático que eu lia antes das aulas, por simples diversão), na seção do Ultrarromantismo havia uma caixa informacional sobre obras góticas (afinal, o gótico tem sua conexão com o Romantismo inglês, e mesmo no contexto brasileiro, tivemos obras góticas, vide Noite na Taverna de Alvares de Azevedo) e entre elas havia Sandman, com algumas imagens do quadrinho e uma das icônicas capas feitas por Dave McKean. Interessado, acabei procurando a HQ, e... Bom, sabe aquela cena de Stranger Things que o Jonathan ao colocar uma música para Will diz que ela irá mudar a vida dele?


A capa que chamou minha atenção lá por 2012

   Bom, foi isso que aconteceu comigo.

    Sandman virou minha Bíblia, por assim dizer. Eu consumi toda a saga principal e os spin offs naquele ano, e toda minha visão de arte, mitologia e narrativa foi mudada. Eu já tinha o objetivo de ser escritor naquela época, e sempre fui um apaixonado por mitologias. Ao ler Sandman, eu simplesmente me deparei com toda uma estrutura, abordagem e uso das Histórias que nem imaginava ser possível. Até hoje fico tentando entender as escolhas de caminhos narrativos de Gaiman para essa história, que por vezes é linear, não linear e convergente (usando esse termo no sentido que vejo Sandman como uma linha com círculos que se encontram em um ponto, já que a gente tem um crescendo, coisas aparentemente aleatórias e um destino ao final), e mesmo relendo a saga várias vezes, o deslumbre não diminuiu.

    Por isso, é óbvio que de todas as séries dos últimos anos, Sandman seja a que eu mais tenha ficado animado (se você me segue no Twitter, provavelmente notou nos últimos tempos quão apaixonado eu sou pela história) por diversos motivos, e por essa paixão, acabei decidindo que precisava comentar, dissecar, externalizar o que foi a experiência dessa série.

    Inicialmente, iria escrever um texto analisando todos os episódios de uma vez, mas não demorei a perceber que seria mais prático dividir em blocos, até para comentar com mais detalhes algumas situações (e também não fazer uma dissertação cansativa para ninguém), então esse primeiro texto cobre os episódios O sono dos Justos, Hóspedes imperfeitos e Sonhe Comigo.

    Então, vamos lá.

frame da série Sandman, mostrando Morpheus, figura masculina branca de cabelos escuros, sentado nu, em no meio de uma esfera de vidro.

    Há uma característica shakesperiana muito forte em Sandman, como um todo. Assim como algumas obras de William, Sandman trata de um monarca e os dilemas que a responsabilidade de liderança e poder exigem. No caso da série, o que vemos é um monarca que é privado de seu trono pela ambição de outros (e não é essa a base das histórias de príncipes e reinos?). Em Sono dos Justos, vemos essa privação quando um ocultista ao tentar capturar a Morte para conseguir seu filho de volta, acaba por prender Sonho, irmão mais novo da mesma quando este tentava resolver o problema de um de seus súditos, Coríntio, um pesadelo que começa a andar no mundo real e matar pessoas ao seu bel prazer. Não demora muito para entendermos quem é Sonho dos Perpétuos, a personificação da imaginação que nos segue ao fechar os olhos, e não demora muito para vermos o que a ganância e ambição podem fazer com um grupo de pessoas. 

    É com esse caráter místico e trágico, que Sono dos Justos inicia a grande narrativa de Morpheus. Se apropriando do drama gótico histórico, o primeiro episódio é eficiente não apenas em contextualizar o que é Sonho, como já definir uma característica que irá se repetir ao longo da temporada: a de que conhecemos Sonho pelas pessoas, e não por ele mesmo. Essa ideia é posta em prática quando acompanhamos todos os fenômenos que o aprisionamento do Perpétuo gera na família de ocultistas, com a tragédia intensificando ao longo dos anos. É um início forte, marcado por um design de produção eficiente em criar o passar das décadas a qual a narrativa abarca, além de criar uma eficiente história gótica de um pai, filho e o estranho ser que está no porão e que com sua presença intensifica mais a relação conturbada dos dois, ao ponto do jogo de ódio e busca de aceitação gerar resultados catastróficos para ambos. É também uma apresentação firme da escolha de Tom Sturridge como Morpheus, a qual mesmo falando pouco (suas poucas linhas de diálogo consistem em uma narração off), já demarca bem a presença de poder de Morpheus em uma atuação física e baseada fortemente no olhar. É possível notar a raiva, rancor, assim como a vulnerabilidade e tristeza do personagem ao longo daquele tempo de aprisionamento, e Tom consegue fazer isso de forma muito orgânica e eficiente. 

    De problema, talvez esse episódio só tenha na direção de uma única cena, que ao tentar encobrir a nudez frontal do ator em um momento que o personagem precisa se movimentar em uma praia acaba por não fazer escolhas muito eficientes em como esconder a nudez, colocando Tom para uma pose que acaba sendo cômica de tão forçada. Não é nada que efetivamente apague todo o resto do episódio, mas particularmente quebrou um pouco da minha imersão.



    A coisa mais óbvia que um Rei faz ao conseguir escapar de seu aprisionamento, é retornar para seu lar de direito. E em Hóspedes Imperfeitos, vemos Morpheus tendo que lidar com o fato que seu reino está em escombros (como ficou explicitado ao final do primeiro episódio). Fraco, e até desorientado com todas as mudanças que aconteceram nos últimos setenta anos, Morpheus inicia sua jornada com pouco a fim de conseguir os utensílios mágicos que foram surrupiados há décadas. De todos os episódios, essa curta (apenas 37 minutos) narrativa talvez fosse a mais fácil de ser esquecida. Ela se comporta basicamente como um pontapé e uma transição da história de Sonho (que aqui abre mais espaço para Tom trabalhar, e já definir nuances interessantes além da figura sombria aprisionada), que começa a correr atrás do que é dele. E eu digo talvez porque mesmo sendo curta e transitória, é um episódio que consegue transmitir o charme sobrenatural que a série vai desenvolver mais ao fundo. Ao apresentar os extremamente simpáticos Caim e Abel (Sanjeev Bhaskar e Asim Chaudhry, em atuações cativantes), uma parte do Sonhar, e mais dos sentimentos de Morpheus ao ter que sacrificar uma criatura para conseguir respostas para as Graças (na melhor cena de todo o episódio, em uma sequência que exala surrealismo e feitiçaria), o episódio flui facilmente e expande mais um pouco do universo, além de avançar um plot com a presença de Coríntio em segundo plano. 

Frame da série Sandman, mostrando um homem negro com braços saindo da boca em uma igreja à noite com velas em castiçais.

    Se o drama gótico marca o início da história de Sonho, é em Sonhe Comigo que ele efetivamente abarca o horror. Ao seguirmos Johanna Constantine (Jenna Coleman, simplesmente incrível na construção de sua personagem ácida, cínica e ao mesmo tempo gentil), vemos os perigos do mundo desperto. Com uma atmosfera lúgubre e se passando todo em uma noite, o episódio nos leva a um exorcismo sangrento, e aos traumas de Johanna com o lidar com o sobrenatural, algo que a persegue em forma de pesadelos. Com uma narrativa simples de missão do dia, a série introduz de forma eficiente o sarcástico corvo Matthew, além de avançar na trama envolvendo John Dee que continua os elementos apresentados no primeiro episódio. É visível aqui, que a abordagem dos roteiristas foi tentar ser simples para não jogar o público em uma série de nomes e eventos com pouco espaço para desenvolvimento. É uma abordagem que apesar de dar a sensação que pouca coisa aconteceu no episódio (tecnicamente, temos apenas três núcleos aqui: Sandman e Constantine, Sandman e Morpheus, Ethel e John), avança de forma eficiente e explora com calma o que está acontecendo. A jornada de Johanna é interessante, assim como a química de Morpheus com seu novo corvo a qual está tão relutante em aceitar ajuda (algo que perpassa muito da personalidade do personagem), e a conversa de Ethel e John apesar de soar um pouco mais esticada do que parece, é bem construída pela atuação angustiada dos atores que expandem a tragédia que herdam dos eventos do aprisionamento de Sonho. De crítica negativa, talvez venha uma reflexão sobre escalação de elenco.

    Uma coisa que fica visível nessa série, é que esse mundo de fantasia gótica, a existência não é restrita apenas a pessoas brancas, nem pessoas hétero. Desde o primeiro episódio, fica claro que os eventos sobrenaturais irão abarcar todos, para o Bem e para o Mal. Contudo, é de se questionar que nem sempre basta colocar pessoas negras para aparecer em cena, se o resultado sempre é a morte. E no terceiro episódio há três pessoas negras morrendo de diferentes formas, e um tanto quanto brutais. E apesar de ser um ótimo episódio, não deixa de ser curioso algumas escolhas. Sandman é uma história que sempre abarcou diversas etnias, grupos minoritários sejam eles de sexualidade, identidade de gênero, e é visível que eles se esforçaram (como ficará mais claro adiante) em trazer diversidade. Contudo, não deixo de levantar uma sobrancelha para essa curiosa coincidência do episódio.

    Os três primeiros episódios de Sandman se iniciam de forma simples, contida em seus próprios momentos, de maneira muito eficiente e que não deixa de ser uma abordagem segura para apresentar ao espectador um universo que progressivamente se tornará mais e mais complexo. Fluindo entre drama histórico, fantasia e horror, é um início que encanta, marcado por um visual arrojado e atuações mais que eficientes de seu elenco.

    Mas é no Inferno que as coisas definitivamente vão ficar mais e mais interessantes...

Comentários

Postagens mais visitadas