[Crítica de Série] Sandman. Episódios 4 a 6 - Com Spoilers

O ápice criativo de Sandman 


    Na crítica anterior, pode ter ficado a impressão que eu desgostei da simplicidade com que Sandman conduz sua trama nos momentos iniciais, mas para colocar os pingos nos Is, a questão não é pela simplicidade pela simplicidade. Em termos de estrutura, os episódios 4, 5 e 6 são bastante simples como são os três iniciais, mas o que diferencia é que eles elevam ao máximo três elementos de maneira distinta cada um: Visual, Roteiro e Atuação.
    Que fique claro: eu não acho que Sandman tenha episódios ruins. Mesmo quando entrarmos na análise de Casa de Bonecas, o último arco adaptado nessa temporada, eu não acho que a série deixe de entregar visuais, roteiros e atuações interessantes, muito longe disso, mas o que acontece na trinca de episódios dessa postagem é que eles definitivamente chamam muita a atenção pelo uso desses elementos em histórias singulares.
    

    Após conseguir sua areia com Johanna Constantine, Morpheus desce ao Inferno junto com seu novo corvo ajudante, Matthew, para recuperar seu elmo. Para isso, ele precisará jogar um jogo ancestral com Lúcifer (Gwendoline Christie em uma atuação incrível que conserva o tom angelical da Estrela da Manhã ao mesmo tempo que deixa claro o quão perigoso e traiçoeiro o Lorde do Inferno pode ser) enquanto no mundo desperto, John Dee se encaminha para reencontrar o Rubi de Sonho. 
    Uma esperança no Inferno tem a mesma estrutura que os dois episódios anteriores, a diferença aqui é que enquanto os episódios passados na subtrama que envolvia o encaminhamento de John Dee dava a  impressão que estávamos vendo longas conversas, a subtrama desse episódio funciona como uma narrativa de episódio por si só. A longa viagem de carro de John e Rosemary por uma estrada à noite e chuvosa é uma história de suspense que prende o espectador quando a mulher vai se dando conta de quão perigoso é o seu companheiro de viagem. Existe tensão com a conversa dos dois, que vai modificando o clima daquela viagem que inicialmente é amistosa, para se tornar uma grande incógnita sobre se Rosemary e sua cachorra rotweiller irão sobreviver a um homem capaz de explodir o corpo das pessoas, e com um senso de moral completamente distorcido. Só por essa pequena trama, o quarto episódio já chama mais atenção, mas é ao investir no Visual que ele se torna uma pérola dentro da temporada.
    Porque verdade seja dita: o Inferno é lindo. A direção de arte desse episódio cria o Reino de Lúcifer de uma forma simplesmente impressionante. Desde os imensos portões, os corredores formados por corpos humanos, os bosques dos suicidas, tudo é tão bem pensado e realizado que se torna um dos momentos visualmente mais impressionante da série. O próprio Jogo Ancestral a qual Sonho e Lúcifer duelam é conduzido numa elegância visual que respeita todo o peso da trama.
    E aqui faz-se necessário perceber como o episódio define em que local a fantasia de Sandman está. Desde o Jogo até a icônica pergunta de Lúcifer, que poder tem os sonhos no Inferno?, o episódio demarca a fantasia de Sandman como um grande jogo sobre a existência e metafísica, algo que irá constantemente ser explorado em diálogos e situações que procuram entender o significado de conceitos nas relações dos indivíduos em aspecto psicológico, social e metafísico.

    Se o quarto episódio demarca o Visual mais impactante da série, é em 27/7 (ou Sem Parar como ficou traduzido, pessimamente se querem saber minha opinião) que vemos o roteiro mais bem trabalhado da série. E novamente, não se trata de Sandman ter um momento com roteiro mal escrito, mas é apenas pontuar onde as coisas se destacam. Nesse episódio, John Dee (David Thwelis em seu ápice ameaçador e assustador) chega numa lanchonete e começa a utilizar de seu rubi quando percebe as mentiras e segredos que cada pessoa dentro daquele espaço possui. Disposto a revelar tudo de sórdido que aquelas pessoas procuram esconder, ele as influencia em uma espiral crescente de tensão com resultados trágicos.
    Esse acaba sendo o melhor momento de roteiro da série, porque há muitos personagens a serem trabalhados em pouco tempo, e Ameni Rosza é extremamente eficiente em apresentar cada personagem de maneira orgânica para aos poucos colocarem em rota de colisão e destruição, além de criar uma atmosfera de apocalipse intimista. Vemos na TV que algo de ruim está acontecendo no mundo (assim como ao final com Morpheus observando uma rua em completo caos), mas é ainda mais assustador vendo os personagens entrando em um processo de decadência que resulta em suas violentas mortes. Ainda que para alguns fãs, essa adaptação do icônico capítulo 24 horas possa ser menos violenta que a HQ, é um episódio muito bem conduzido, com um visual inteligente e que aproveita bem o espaço e a iluminação do local e atuações que sabem trabalhar e transmitir informações sem ser apenas com o uso do diálogo (que aqui flui naturalmente, sem ser expositivo demais, ainda que exponha muitas coisas). O caráter metafísico retorna com Morpheus e John discutindo o que os sonhos se ligam com o desejo e segredos, assim como a aura de terror que aqui está mais o psicológico e o horror do comportamento humano.

    E após tanta desgraça, horror, sofrimento e violência chega a hora de respirar. E é com o delicado e lírico, O Som Das Asas Dela que a série entrega o seu melhor episódio, e que particularmente já vira um dos melhores episódios de série dos últimos anos. Na trama, Sonho está deprimido, já que sua missão pela busca dos utensílios mágicos acabou, ele passou anos aprisionado e não sabe bem o que fazer. Esse caráter melancólico do personagem é bem apresentado por Tom, que consegue encarnar bem essa faceta deprimida, mais vulnerável. Em uma tarde alimentando os pombos, Sonho acaba recebendo uma visita da sua irmã mais velha, Morte, que o convida para um dia juntos para conversar.
    E sinceramente, que conversa. O que mais encanta nesse episódio é que vemos a perspectiva da Morte, esse elemento que assim como o Sonho, faz parte da história de todos os seres humanos e coisas vivas. É um episódio de contemplação, a qual os dois principais temas são a mortalidade e o compromisso (elucidarei mais adiante). Ao seguir sua irmã mais velha, Sonho observa as responsabilidades que a Perpétua precisa assumir, e como não é uma tarefa fácil. Com um tom contemplativo, acompanhamos um dia na rotina de Morte, e ainda que pareça a Perpétua mais alegre e gentil, é possível notar como ela passou por um caminho de dificuldades e questionamentos até chegar na percepção que possui naquele momento. É o drama mitológico de dois seres responsáveis por bilhares de vida. E isso não seria possível se não fosse a brilhante e sensível atuação d Kirby Howell-Baptiste. A atriz entende a personagem e encarna todos seus traços gentis, consideravelmente mais alegres que o do irmão mais novo, assim como a lembrança da angústia pela dificuldade de sua tarefa. É uma atuação que brilha, e que junto com Tom Sturridge também mostra o afeto entre uma irmã mais velha preocupada pelo seu irmão mais novo, procurando animá-lo e aconselhá-lo como irmãos fazem.
    Outro enfoque em termos de atuação, é na segunda metade do episódio quando conhecemos a amizade imortal de Sonho, Hob Gadling (interpretado por Ferdinand Kinglsey) um homem que acaba se tornando um experimento de Sonho para ver até que ponto um humano pediria pela Morte. A cada cem anos, os dois se encontram em uma única noite na mesma taverna, e Sonho questiona como Hob está e se está decidido a viver mais cem anos. É um conto que mantém o lirismo da relação vida e morte, com um personagem que em determinado momento apesar de ter passado 80 anos sofrendo na miséria, olha para Sonho e afirma que ainda tem mais para viver apesar de toda a dor que passou. A relação dos dois personagens, que aos poucos realmente se tornam amigos, é bem executada pelos diálogos e a dedicação de Ferdinand e Tom (que aqui mostra a sua habilidade ao impedir que Sonho se torne alguém blasé. Ele parece sim parece distante da humanidade e dos dramas que ela produz, mas é interessante notar o fascínio que vai se criando com Hob, até aproximar do carinho).
    E um comentário é necessário fazer sobre como Visual da série ainda é bem pensado nesse episódio. Ainda que muito da segunda metade retorne ao drama sobrenatural histórico do primeiro episódio, muito do episódio funciona porque temos um momento de respiro e contemplação do mundo humano. A simplicidade e ausência de elementos visuais fantásticos funciona para de fato contemplarmos a mortalidade e o potencial das histórias que a vida e morte dos humanos gera. Ao centrar num visual mais realista, mais centrado na humanidade, também reforça o argumento de Morte que os Perpétuos não existem por si só, mas para as coisas vivas que necessitam deles.
    Por vezes assustador, por outra lírico e simbólico, a trinca desse segundo bloco de episódios de Sandman mostra todo o potencial e criatividade que a série tem a oferecer. Utilizando bem de todos os elementos que tem a disposição, Sandman entrega uma sequência incrível de episódios antes de entrar na melancolia de brincar de casinha de bonecas para escapar da realidade...




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